Tipo de engajamento

O tipo de engajamento neste projeto está voltado principalmente a dois conceitos apresentados: o e-empowering e o e-engaging.

– e-engaging: O conteúdo do Complicitat é formado em parte por projetos de leis, projetos de decreto legislativo, projeto de resolução e as próprias leis em vigor na cidade de São Paulo. Os cidadãos podem consultar, comentar e compartilhar este conteúdo a fim de que seja criado um debate em torno das questões.
– e-empowering: Além da possibilidade de consultar as propostas criadas por políticos é possível criar projetos de leis com qualquer tema e disponibilizá-los a outros cidadãos a fim de estimular a participação e eventualmente se tornar uma proposta efetiva.

A plataforma Complicitat

Apresentação
No Brasil, a avaliação que se faz dos governos eletrônicos é que, apesar do crescimento do número de websites bem como da quantidade e qualidade das informações, o que está se formando é apenas um “canal alternativo de entrega do resultado dos processos tradicionais de administração pública”. Na avaliação dos portais estaduais o pesquisador José Gomes do Pinho (2010), relata que “pode estar ocorrendo uma exploração pouco efetiva das possibilidades da tecnologia para levar a uma maior interatividade”.

O website do governo municipal de São Paulo é considerado satisfatório em relação à provisão de informações, entretanto deixa muito a desejar quanto à efetiva participação do cidadão e quanto à facilidade de acesso às informações. Estudos recentes apontam que, dentro dos graus de participação apresentados anteriormente, o Portal da Prefeitura de São Paulo preenchia os requisitos do terceiro grau de democracia digital. Segundo Tanhati (2009), é evidente o avanço do Portal na provisão de informações, mas não desvincula o processo do modelo democrático hegemônico, representativo-liberal, ou seja, não abre espaço para participação.

Na avaliação dos portais brasileiros, José Gomes do Pinho (2010) conclui que “os portais ressentem de uma maior interatividade, podendo-se inferir que as relações que se estabelecem são fundamentalmente do tipo government-to-citizen, sendo o governo o emissor e a sociedade, ao que tudo indica, o receptor passivo, estando longe a inversão dessa relação para citizen-to-government”.

É necessário aproveitar as ferramentas que surgem do avanço tecnológico para o crescimento da discussão democrática. Integrar tecnologias como as redes sociais para alavancar este debate pode ser essencial para o sucesso de iniciativas.

O projeto Complicitat foi criado da necessidade de aplicar, no município de São Paulo, o conceito de governos eletrônicos a partir de uma iniciativa bottom-up, isto é, a partir da sociedade civil para incentivar uma maior participação do cidadão no ciclo democrático.

É importante ressaltar que não se trata de uma relação citizen-to-government porque a iniciativa não partiu do governo, mas da sociedade civil, para um maior engajamento entre os cidadãos através da utilização das informações que o governo do município de São Paulo já disponibiliza. Pela lógica podemos assumir que, pela falta da participação governamental, é estabelecida uma relação citizen-to-citizen.

A dinâmica de funcionamento do Complicitat é formada pela possibilidade de consultar os textos dos projetos de leis e das leis do município de São Paulo, participar do fórum de debates e criar tickets. Os tickets são fatos, ocorrências ou flagrantes feitos por cidadãos que podem ser compartilhados entre os próprios cidadãos.

Além disso, o projeto integra alguns conceitos já difundidos na Internet como os comentários, o compartilhamento e os seguidores, bem como alguns adaptados ao objetivo da iniciativa. O estudo de referências (benchmark) foi muito importante para o escopo do projeto e permitiu coletar acertos e erros de outras iniciativas para aumentar a chance de sucesso.

Os métodos
A maior parte do conteúdo original que será apresentado dentro do website será desenvolvido pelos cidadãos. Este tipo de conteúdo, chamado UGC (User Generated Content, ou Conteúdo Gerado pelo Usuário), tem como principal característica o amadorismo, isto é, não é criado por profissionais. Este material pode ter diversos formatos, tais como vídeos, perfís profissionais, blogs, textos em fóruns, fotos e outros. Nesta plataforma são aceitos os conteúdos feitos por texto, foto e vídeo. Junta-se ainda os mecanismos de compartilhamento de conteúdo, realizados nas principais redes sociais.

As mídias sociais, aliadas ao conteúdo gerado de forma colaborativa, formam o principal alicerce da web 2.0. Nas mídias sociais, o usuário ganha o poder de emitir opinião e espalhar esta informação aos amigos virtuais. “Este tipo de dado pode ser caracterizado como subjetivo porque expressa opiniões pessoais, pensamentos e preferências”.

Esta nova abordagem em relação às informações é essencial para o engajamento do cidadão na iniciativa. Desenhar de uma melhor forma as informações públicas online deve começar da perspectiva do usuário final e requer um estudo das suas necessidades, capacidade de encontrar os dados, resumir e usar informações relevantes. A melhoria da acessibilidade das informações online pode ser viabilizada com o fornecimento de informações online no caso de eventos específicos ou políticas públicas, motores de busca, softwares para checar o estilo e melhorar a inteligibilidade dos textos oficiais, traduções de documentos oficiais e publicação de glossários online.

O projeto exige a participação ativa dos cidadãos na criação de tickets com denúncias, sugestões ou flagrantes de acontecimentos da cidade, bem como na formulação de projetos de políticas públicas. Desta forma, o exercício da cidadania é feito de maneira ativa e compartilhada.

Por outro lado, o projeto incentiva a accountability na medida que os projetos de lei e as leis em vigor são disponibilizados para que os cidadãos possam consultar e então opinar. A transparência e o incentivo à participação podem estimular a prestação de contas e a maior responsabilização dos governantes por seus atos.

Somente a partir da organização de cidadãos vigilantes e conscientes de seus direitos haverá condição para a accountability. Não haverá tal condição enquanto o povo se definir como tutelado e o Estado como tutor” (Campos, 1990).

Em resumo, o projeto atual destina-se à apresentação de forma interativa e inovadora dos dados que são obtidos no Portal da Prefeitura de São Paulo bem como ao estímulo à opinião e compartilhamento de informações.

Relevância
O escopo do projeto prevê um volume grande de informações no banco de dados. Por isso é necessário segmentar as informações segundo a localização do ticket. Desta forma o conteúdo referente a um determinado bairro é mostrado somente para os habitantes daquele bairro. Esta segmentação é definida durante o cadastro do usuário, no momento em que este é perguntado em que lugares ele habita e trabalha (é aberta a possibilidade de cadastro de mais lugares).

A partir desse georeferenciamento abre-se uma grande possibilidade de interações com o cidadão. Acidentes em determinadas regiões da cidade, por exemplo, que venham afetar os cidadãos de um bairro, podem ser comunicados e compartilhados. Enchentes, por exemplo, ou interrupções de energia e transporte também podem usar dessas ferramentas para comunicação instantânea.

Para guiar a desconstrução do projeto bem como das ferramentas e a justificativa da sua implementação foi utilizado o quadro referencial (framework) E-Methods for Public Engagement: Helping Local Authorities communicate with citizens, desenvolvido por desenvolvido por Macintosh, A., Coleman, S., e Lalljee, M. (2005).

Ferramentas específicas

1- Webcasts
Os Webcasts são gravações de encontros online transmitidos por meio da Internet.
Esta ferramenta permite que sejam feitas transmissões, como faz a televisão, mas com uma diferença: não existe a necessidade do canal de transmissão. Eles permitem que as pessoas assistam e escutem em tempo real qualquer evento como, por exemplo, os debates dos comitês. A interação pode acontecer por meio de comentários durante as apresentações, apesar desta ferramenta não ser a mais apropriada para uma interação intensa.

As transmissões podem ser gravadas e disponibilizadas para consultas posteriores, prática que é muito utilizada em treinamentos ou em apresentações que exigem frequentes repetições.

2- Perguntas frequentes, ou frequently asked questions (FAQ)
As perguntas frequentes é uma “árvore” de questões e respostas que podem ser buscadas utilizando-se palavras-chave ou uma frase em “linguagem comum”. Estas listas de perguntas e respostas são geradas a partir de pesquisas com as perguntas mais frequentes que, geralmente, não conseguem expressar a relevância de um determinado problema complexo.

3- Blogs
Os Blogs são páginas online listadas como um diário e frequentemente organizadas em ordem cronológica reversa, ou seja, as mais recentes estão em prioridade.

O software necessário para administrar o conteúdo de um blog está disponível gratuitamente na Internet. Os sistemas podem ser armazenados tanto em um servidor próprio quanto em um servidor externo. O software para gestão do conteúdo tem uso relativamente simples e não requer conhecimento específico como, por exemplo, saber uma linguagem de programação para ser operado.

O conteúdo dos blogs pode ser diferenciado e adicionar mais perspectivas à discussão já feita pelos cidadãos, e abordar experiências, notícias, opiniões de oficiais do governo ou grupos temáticos. Esta ferramenta pode mostrar o efeito de determinadas políticas nas comunidades afetadas, e outros usuários podem adicionar comentários, no entanto o conteúdo da página tem o foco no ponto de vista do autor. Os bloggers (autores do blog) devem atualizar o conteúdo com frequência para manter seus leitores engajados e comprometidos.

4- Quick polls (pesquisas instantâneas online)
Esta ferramenta é caracterizada por ser um módulo de pesquisa que permite ao usuário escolher uma alternativa entre várias como resposta a um questionário ou pergunta. O tema do questionário pode ser, por exemplo, avaliar o grau de satisfação de um serviço ou priorizar uma questão em detrimento de outra. Uma vez que a resposta é enviada os resultados parciais da pesquisa são apresentados.

Tradicionamente, com o uso desta ferramenta, nenhuma informação pessoal ou relacionada a localização é coletada. Entretanto, se o Internet Protocol (IP) não for identificado e armazenado pode ser difícil impedir que os participantes votem mais de uma vez. As pesquisas rápidas são empregadas como ferramentas para discussões leves, divertidas, e não são apropriadas para discussões mais profundas.

5- Pesquisas
As pesquisas são questionários auto-geridos criados e aplicados em ambiente online. Nesta ferramenta são listadas perguntas que os usuários podem responder a qualquer momento. Elas podem ser usados para coletar opiniões e experiências de participantes por meio de uma lista de alternativas ou por meio de um campo de texto.

Normalmente a pesquisa é composta por algumas questões fechadas que são organizadas em categorias. As estatísticas apresentadas ao final do questionário consideram somente as questões fechadas, uma vez que as abertas exigem análise antes do resultado.

As vantagens da pesquisa são a possibilidade de coletar dados quantificáveis, de fácil interpretação e análise e que exigem uma pequena equipe de poucas habilidades. As respostas do questionário podem ser transportadas facilmente para um banco de dados para posterior análise. No entanto, as questões fechadas não permitem que os participantes expressem totalmente seus pontos de vista. Infelizmente, as respostas abertas são difíceis de codificar sistematicamente.

6- Sala de chat (Bate-papo virtual)
A sala de chat é um espaço virtual em que uma sessão de bate-papo acontece em tempo real entre dois ou mais usuários. Uma vez que um usuário inicia uma conversa, qualquer um deles poderá enviar informações de todo tipo, que imediatamente aparecerá na tela de todos aqueles que compõem a sala.

Esta ferramenta estimula a participação na medida que permite o envio de informações de forma livre. Normalmente, este tempo de troca perfaz aproximadamente 1 hora. Estas informações são trocadas instantaneamente e, por isso, muitas mensagens ficam fora de ordem e sobre assuntos completamente diferentes. Esta característica precisa ser considerada caso o resultado da discussão necessite de uma análise detalhada. Usualmente, ainda que estas conversas sejam baseadas em texto elas permitem, cada vez mais, alternativas multimídia de interação como, por exemplo, transmissões em áudio e vídeo.

A sala de chat é a ferramenta recomendada para conversas sobre determinados temas entre experts e cidadãos ou entre os próprios cidadãos. Estas conversas devem ser agendadas de tal forma que todos possam conectar-se ao mesmo tempo e aproveitar a sessão.

Normalmente, as salas de bate-papo têm um moderador que deve facilitar a interação entre os participantes, controlar os incidentes e comportamento inadequado. A participação de um moderador é necessária para assegurar um ambiente seguro para menores de 16 anos.

7- Decision-making games
Estes jogos permitem que os cidadãos consigam interagir, comentar e dividir pontos de vista sobre determinados assuntos. Normalmente, rstas ferramentas envolvem algum tipo de competição e, por isso, é necessário montar uma espécie de quiz. Os níveis deste quiz, bem como a sua interface, devem ser escolhidos segundo o público-alvo e o objetivo da iniciativa. O design dos jogos deve ser muito bem elaborado para que o resultado final seja atrativo, interativo, divertido e, ao mesmo tempo, informativo e realístico. O jogador pode enfrentar uma série de situações, ser estimulado a fazer escolhas e, assim, simular o efeito do mundo real.

Estes jogos normalmente são desenvolvidos para um jogador e não para grupos de jogadores. Suas respostas e performances não são divididas entre os participantes mas podem alimentar um banco de dados. No entanto, existem alguns jogos com mais de um participante onde eles adotam papéis e representações virtuais. Desta maneira, eles conseguem trocar informações e mensagens seguindo algumas regras e ações que simulam um processo de formulação de políticas públicas as quais envolvem alguns elementos de cooperação e competição.

O formato do jogo é, provavelmente, mais atrativo aos jovens, que já tem acesso a jogos de computador.

8- Fórum de discussão
O fórum é a ferramenta de discussão e troca de mensagens abertas por um grupo de usuários que normalmente têm interesses em comum. A organização destas discussões é feita em tópicos com temas específicos e, dentro deles, os cidadãos criam sub-páginas com questões específicas.

As discussões em fóruns são diferentes das feitas em salas de chat na medida em que a interação é estruturada e organizada em temas, e o seu conteúdo é armazenado por meses ao invés de horas.

O registro dos usuários é obrigatório para que o conteúdo possa ser moderado. Desse modo, os usuários podem contribuir com seus pontos de vista e opiniões dos diversos temas e, no geral, acompanhar os comentários. O design desta ferramenta deve ser feito de forma a deixar claro para o usuário como é feita a navegação entre os tópicos.

Os tipos de fóruns podem ser divididos em:
– Fóruns com foco na questão: são organizados em torno de questões políticas formuladas por políticos, grupos de interesse ou experts e apresentados com destaque. Quase sempre os links externos com referências ou históricos não estão presentes.
– Fóruns com foco na política pública: estão organizados em torno de temas ou problemas diretamente relacionados com algum rascunho ou políticas ainda não finalizadas. Os participantes são, então, estimulados a enviar alternativas e sugestões para o projeto bem como opiniões, ou mesmo se concordam ou não com a proposta.

Este formato é adequado para as discussões mais complexas e para uma interação mais efetiva entre os participantes. No entanto são exigidas habilidades específicas e mais tempo para compilar as análises e as constribuições para os relatórios.

9- e-Panels
Os painéis são grupos de debate entre cidadãos para uma pesquisa de opinião. Este formato difere dos demais por haver uma escolha prévia dos participantes e não estar disponível para participações espontâneas.

Na dinâmica dos e-Panels, os participantes concordam em dar suas opiniões em uma variedade de questões em intervalos específicos de tempo. Normalmente, utilizam-se questionários online e as respostas não são compartilhadas entre os participantes da pesquisa. Estes painéis podem ser organizados para apoiar o engajamento de mais participantes bem como utilizar qualquer outra ferramenta dentro deste escopo. Assim, o grupo escolhido pode debater utilizando, por exemplo, o fórum.

Para recrutar e sustentar este tipo de iniciativa pode-se utilizar vouchers e o tokens para controle de informações.

10- e-petitioning (petições eletrônicas)
O e-petitioning é um sistema que abriga petições e permite que cidadãos assinem virtualmente o apoio da questão. Para isso precisam fornecer o nome e o endereço eletrônico.

Os nomes e os endereços podem ser conferidos, mas não com o rigor do e-voting. O formato das petições varia conforme as exigências dos governos. Entretanto, em todos os casos é necessário fornecer relatórios para situar as questões dentro do processo de formulação de políticas públicas a fim de que o cidadãos saiba qual é o momento em que aquele debate se encontra.

11- E-deliberative polling
Esta ferramenta faz a combinação de discussões de um grupo pequeno de cidadãos para facilitar o debate de temas específicos. As ferramentas apresentadas podem ser utilizadas para sustentar este tipo de iniciativa.

Os tradicionais métodos offline de engajamento são frequentemente criticados por reunirem um grupo desinformado sobre as questões apresentadas. Neste modelo é importante reunir opiniões de pessoas diferentes por meio de pesquisas deliberativas.

12- Comunidades virtuais
Por definição, “comunidades virtuais são grupos de pessoas onde as relações interpessoais são fortes o suficiente – evidenciado por interesses comuns, normas e comunicação regular – para formar as comunidades virtuais”. É importante perceber a existência de um “senso de comunidade” (Blachard e Markus, 2004) que faz do grupo uma verdadeira comunidade e não simplesmente uma coleção de indivíduos se encontrando em um ambiente virtual. Uma das ferramentas que abriga as comunidades virtuais é a rede social, muito popular atualmente por conta de websites como o Facebook.

As redes sociais são “uma simples e poderosa ferramenta que abstrai a representação de quase qualquer tipo de interação e conexão humana”. Normalmente estão estruturadas e simulam, no ambiente virtual, a dinâmica real de interação entre seres humanos, “mimetizando o crescimento e interação de uma comunidade real”.

É um universo que consiste de nós, unidades como pessoas, equipes, organizações ou a combinação destes elementos, ou laços entre estes nós, que podem ser comunicações, dependências ou vizinhança.

Atualmente há diversos websites organizados especificamente para as relacões sociais e outros que reúnem pessoas para determinados fins, o qual permite que os usuários se registrem e participem da discussão acerca de um tema específico ou sobre uma determinada área geográfica.

13- Serviços de alerta
Os serviços de alerta são mensagens enviadas aos cidadãos sobre um evento ou notícia. Este serviço é, essencialmente, de mão única e não permite interação entre usuários ou emissores e receptores. Existem atualmente dois tipos de alerta:
– Alertas de email: o website do projeto oferece aos usuários um formulário de registro para que possam receber emails quando algo novo é submetido. Em muitos websites há a possibilidade de registrar-se e escolher que tipo de informação desejam receber. O dono do website tem a responsabilidade de enviar as informações que achar mais relevantes bem como o dever de permitir que os usuários se descadastrem e parem de receber os comunicados.
– Feeds RSS: trata-se de um mecanismo largamente utilizado no ambiente online que tem a finalidade de manter os usuários informados nas mudanças e notícias do website. Este facilitador evita que usuários tenham que visitar o website toda vez que houver uma atualização.

As ferramentas/métodos disponíveis

Os governos têm disponível uma grande lista de ferramentas que permitem realizar a tarefa de coletar ideias, opiniões e sugestões de cidadãos em relação a problemas colocados em plataformas digitais. A lista de ferramentas passa por weblogs, mecanismos de alerta e plataformas sofisticadas de consultoria.

A pesquisadora Ann Macintosh (2004) considera 13 tipos de ferramentas para o engajamento eletrônico. Para cada tipo de interação são utilizadas ferramentas específicas: acesso factual fornecido por um participante; gerar informações com base nas opiniões de outros participantes; emitir opinião pública ou particular em relação a um determinado participante; iniciar a própria discussão e se tornar um stakeholder relacionado àquela discussão específica. As características das ferramentas apresentadas abrangem o simples compartilhar das informações até a e-participation.

No presente trabalho são consideradas somente ferramentas e métodos do ambiente web que suportam o governo eletrônico diretamente. Portanto, não estão incluídas ferramentas que suportam discussões em grupo tais como listas de emails, ainda que sejam muito utilizadas por interessados.

Também não foram incluídos os métodos e as ferramentas antigas que já são largamente implementadas para feedback, como por exempo formulário de reclamações e dúvidas. Estes sistemas já estão inclusos nos sistemas de atendimento de grande parte das prefeituras e governos locais.

É necessário que se faça uma ampla pesquisa sobre as opções de ferramentas para que seja feita a melhor escolha e se obtenha a melhor maneira de participação popular. Nesta decisão devem ser considerados as restrições de orçamento e os objetivos específicos destas iniciativas.

Implicações para avaliação

Segundo Macintosh (2008), os métodos de avaliação mais comuns utilizados para os governos eletrônicos são os tradicionais. Eles incluem, por exemplo, o retorno sobre investimento (ROI), custo e benefício, período de payback e o valor presente.

A utilização dos métodos tradicionais pode ser problemático na avaliação de investimentos em sistemas de informação em geral e, em particular, no investimento em governo eletrônicos. Os problemas nestas análises incluem a definição limitada dos participantes, o foco na medição dos custos e dos benefícios tangíveis, além do fato de que estes investimentos são baseados em instrumentos financeiros e de contas (Farbey et al., 1995).

Serafeimids and Smithson (2000) também criticaram os métodos tradicionais de avaliação de sistemas de informação. Eles argumentam que os métodos tradicionais são baseados em termos técnicos estreitos e ignoram os componentes humanos e organizacionais de usuários de sistemas de informação. Hochstrasser (1992) também critica o método por não detectar todos os custos e benefícios intangíveis gerados do sistema de usuários.

Segundo Macintosh (2008), avaliações rigorosas de iniciativas de participação eletrônica são raramente encontradas, e algumas publicações trazem o embrião do que pode vir a ser um quadro referencial (framework). Na publicação Towards an Evaluation Framework (Macintosh, A. e Whyte, A.) são descritos os usos de diversas perspectivas e métodos para avaliação das iniciativas de participação eletrônica, entretanto não é definido um modelo definitivo.

O quadro referencial utilizado no presente trabalho atesta que a eficiência das iniciativas de participação eletrônica deve ser comparada ao sucesso de outras que foram realizadas fora do ambiente virtual, isto é, offline. Além disso outras questões devem ser consideradas sob o ponto de vista da técnica e social:
-Avaliação técnica: como o desenho da TIC pode afetar os resultados destas interações?
-Avaliação social: como a capacidade e nível dos consultados pode afetar os resultados destas iniciativas?

Questões tecnológicas

As questões tecnológicas compreendem as características das tecnologias que podem ser utilizadas a fim de viabilizar a participação do cidadão com os mais diferentes dispositivos e configurações. Portanto deve estar no escopo de toda iniciativa analisar as opções e escolher se as aplicações poderão ser utilizadas, por exemplo, em baixas resoluções, por computadores pessoais e por computadores Apple, oferecer informações que necessitem de softwares como Macromedia Shockwave Flash ou Adobe PDF, e outros.

Duração

Assim como em ações offline, qualquer iniciativa de participação eletrônica deve estabelecer o período para a coleta de informações bem como esclarecer o grupo de participantes que a atividade insere-se neste prazo. Este limite define o prazo pra que o desfecho desta participação, que pode ser a implementação de uma nova política pública, seja alcançado.

Acessibilidade e usabilidade

Antes de iniciar um exercício de engajamento online, é preciso considerar as limitações do design técnico. Para este fim a técnicas de usabilidade devem ser aplicadas para que a navegação seja entendida pelo maior número de usuários possível.

Os conceitos e as melhores práticas de acessibilidade estão disponíveis na página Web Accessibility Iniciative Content Guidelines. A versão 2.0 deste documento cobre uma grande variedade de recomendações para fazer as páginas mais acessíveis para pessoas desabilitadas, incluindo cegos, surdos; pessoas com deficiência de aprendizagem, limitações cognitivas, movimento limitado e outros.

Regras de engajamento

A participação nesta plataforma deve ser regida por regras de conduta claras, e os seguintes tópicos devem ser cuidadosamente tratados: proteção dos dados, registro, moderação e um ambiente protegido e moderado se crianças estiverem envolvidas.

As regras para a proteção de dados pessoais exigem que as informações armazenadas estejam em um servidor seguro, e no case das senhas que elas estejam encriptadas. Toda iniciativa eletrônica deve deixar acessível a página de política de privacidade, para garantir a todos os participantes que qualquer informação pessoal não será utilizada e quem terá acesso a estas informações. Alguns modelos de regras de utilização estão disponíveis no gerador de política de privacidades do website da OECD.

É importante que os termos de uso estipulem regras claras sobre o conteúdo que poderá ou não ser disponibilizado nas páginas em qualquer formato. O documento deve fornecer conselhos legais, mas a linguagem deve ser acessível a todos. Os moderadores das discussões também devem ter regras de conduta.

A moderação do conteúdo submetido ao website pode ser feita de duas maneiras, pré-moderadas ou pós-moderadas:
– Pré-moderadas: neste modelo todas as respostas são avaliadas antes de aparecerem online para garantir que elas estão de acordo com os termos de uso. Neste caso existe o risco dos participantes sentirem-se desencorajados a contribuir quando não virem suas contribuições imediatamente na página. A vantagem deste tipo de moderação é ter um alto controle sobre o que é disponibilizado nas páginas.

– Pós-moderadas: neste modelo todas as respostas dos participantes são armazenadas para avaliação por um período definido (por exemplo, 24 horas). O risco, nesse caso, é que os participantes utilizem linguagem não apropriada que pode ser lida por outros usuários. A vantagem deste caso é que os participantes podem ver suas mensagens imediatamente após a inclusão no formulário.

Com relação à participação de crianças, a orientação dada em diretrizes é orientar os participantes a não enviar informações pessoais, como pode ser visto nas normas de segurança de crianças encontrados nos websites www.thinkuknow.co.uk e www.childnet-int.org.

Audiência-alvo

Para selecionar quais ferramentas serão utilizadas no projeto de participação eletrônica é importante que a audiência, ou seja, o usuário final, seja bem definido. Portanto, algumas características como o recorte geográfico, o número aproximado de usuários e as habilidades (se estes usuários estão familiarizados com os conceitos apresentados, por exemplo) são itens que devem ser considerados no escopo do projeto.