Estudos de Mário de Andrade sobre o Lundu e Cândido Inácio da Silva

lundu

Apesar dos esforços em torno dos estudos da música é claro o não amadurecimento dos estudos sobre o lundu, e por este motivo devemos nos ater a apenas algumas análises sobre o estilo e os compositores que destacaram este ritmo. O lundu, para os não iniciados, veio a formar o chorinho em uma mistura de batuques africanos – principalmente angolanos – com ritmos portugueses, aos quais foi adicionada uma dança. Mário de Andrade, em suas jornadas de estudos sobre ritmos brasileiros, deseja mostrar o marco deste estilo, o lundu de salão intitulado “Lá no Largo da Sé”, de Cândido Inácio da Silva.

Para isso o autor analisou a erudição do autor do lundu sob diversos aspectos e recolheu pistas da formação musical de Cândido Inácio da Silva. Afirma que foi aluno do padre José Maurício Nunes Garcia, um renomado musicista da época, e foi classificado como Tenor por Sílvio Romero, tendo participado de diversos de diversas apresentações ao lado de grandes ícones do começo do século XIX.

Candido morreu jovem, ainda com pouco mais de 30 anos, e Mário destacou os elogios com que a crítica tratava o jovem musicista. Ressaltou que seu talento foi ímpar para a época, a geração que revelou Chopin e Liszt anos depois na música internacional. Mário ressalta a homenagem que um dos seus críticos fez após a morte de Candido, reproduzida a seguir:

“A ele devemos uma quantidade prodigiosa de modinha e lundus, variações e concertos para diversos instrumentos, e, sobretudo a produção dramática de coros infernais, nos quais ele se afastou da estrada da rotina e do plagiato, aparecendo em cena com uma harmonia nova e um colorido original, que só pertencem ao gênio; em todas as suas produções havia um pensamento melódico que revelava um estilo próprio, e a sua harmonia era manifestada por combinações originais.”

O sucesso alcançado por Cândido foi alcançado apenas no Primeiro Império. Já no começo do século XX, poucos autores sequer conseguem reproduzir suas obras, e as modinhas esmagam a diversidade e dominam o cenário musical. Apesar de muito eruditas e pertencentes ao gênero “de salão”, as composições de Cândido se difundiram no meio popular. As composições ainda continham muitas “dificuldades de enfeite e emissão vocal”, segundo Mário de Andrade, o que poderia muito dificultar a entrada nos meios populares, fato que não se concretizou. O sucesso de Candido foi enorme neste período.

O autor defende a idéia de que no romance de Manuel Antonio de Almeida, a tradição folclórica negra ainda não se fundira na criação dos brancos, citando duas evidências deste fato na obra de Almeida.

Outra prova da “não-fusão” do folclore negro no do branco até o século XIX é a inexistência de uma dança dramática brasileira com fundamento propriamente nacional – os “bailados” de origem afro-negra só eram dançados por pretos, enquanto que os de origem ameríndea eram dançados por todos.

Com o Romantismo esta tendência social de maior aproximação ou aceitação do índio e não do negro também é perceptível, particularmente com José de Alencar, que nunca apresentou um herói negro.

Mas, desde os últimos tempos setecentistas da Colônia, o lundu “vence o fingido desinteresse das classes dominantes e invade sem convite a festa dos brancos”, ainda que reformulado, mais instrumental e “descascado de sua cor” no início. Assim, torna-se a primeira forma musical afro-negra que se espalha por todas as classes sociais brasileiras cantando sexualmente os “amores desonestos”, e louvando a mulata, raramente a negra, como evasão sexual e introduzindo erros gramaticais consentidos. Outras vezes o lundu cantava comicidades, que também lhe servia como disfarce para penetrar nas classes dominantes, assim como ocorreu na ópera buffa e na farsa medieval. Já no Primeiro Império o lundu foi se tornando mais branco e mais europeizado.

Também não se pode esquecer que Chô Araúna, que fez parte da vida dos negros do final do século XIX não tem semelhança alguma com a versão de Friedenthal. É interessante ressaltar onde Mário de Andrade conseguiu resgatar resquícios destes cantos: no folclore nordestina na década de 1930 e nas cantorias de infância do próprio autor. Este tipo de música é chamado maxixe, mas foi oficializado como tango, segundo Friedenthal, e que acabou generalizado.

Por fim, Mario de Andrade acaba por eleger o lundu como um dos maiores ícones de miscigenação entre classes – é música brasileira popular e folclórica apesar da instrumentalidade, contém sincopação, mas é música popular afro-negra. É a primeira manifestação de nacionalidade.