tony manero e os irmãos cohen

Entrei empolgado no cinema pra assistir um filme chileno, maldito marxismo amador. Sou daqueles que passa tanto a toda e qualquer forma de arte e expressão uma compaixão quase maternal por países desgraçados que, se por qualquer traquinagem me fosse apresentada a mesma película com duas origens diferentes com certeza pra mim a do povo sofrido teria um valor muito maior. Assim de saída mesmo.

Pois ‘Tony Manero’ conseguiu perder completamente a vantagem. A começar pelo pano de fundo da cena, um Chile em plena ditadura militar. Certamente o Chile foi o país da América Latina que mais sofreu com o período, e com certeza hoje ainda conta os desaparecidos e desenterra corpos que antes pertenceram a militantes. O criminoso Pinochet tinha a mania, entre outras práticas de sadismo, de arremessar jovens esquerdistas ao Oceano Pacífico em vôos patrocinados pelo governo. O detalhe cruel fica por conta dos pés, que presos às latas de tinta cheias de cimento seco deveriam proporcionar uma descida mais rápida aos manifestantes.

Agora sem qualquer resquício de moral pra o fazer critico o cenário, que parece assombrar toda a arte latinoamericana até hoje. Os filmes, a produção literária, ídolos… todos de alguma forma remetem ao período sem deixar que qualquer ‘luz adentre por qualquer fresta e motivo não há para ser feliz’. A Argentina me parece ter sido o único país que exorcisou seus demônios ditatoriais, ainda que não deixe seu povo esquecer dos sanguinários combates – suas mães já não vão mais à Plaza de Mayo. A página precisa ser virada, os que sobreviveram ganharam a glória e até o todo poder em vários casos.

O papel do ator principal de ‘Tony’ parece ter saído diretamente de um filme dos irmãos Cohen – mais propriamente de ‘Onde os fracos não tem vez’, apesar de achar que os diretores estão brincando e, fazendo sempre o mesmo filme a carreira inteira, e vão contar no final que tudo não passava de uma charada. Eu tenho a tendência a acreditar que é uma falha na educação do ator, que mantém a feição fixa durante todo o filme, diz uma frase a cada dez minutos e tem uma mania e fixação absolutamente insuportável por Tony Manero (o personagem boçal de John Travolta em “Saturday Night Fever”) e ninguém percebe que o sujeito é um potencial serial-killer. Sua namorada e amigos caíram dos céus, assim como a falta dos freios morais.

O restante dos atores fazem um filme a parte, sempre reverenciando o ator principal – que já não está mais por aqui. A trama é simples, bem parecida com um filme dos irmãos Cohen também. Assassinatos por qualquer motivo, cenários decadentes e cenas longuíssimas sem qualquer ação aparente estão no roteiro. Confira o trailer abaixo e bom filme.