Sobre falar e fazer em Crime e Castigo

“Eu aqui querendo me meter numa coisa dessas e com medo de bobagens! – pensou ele, com um sorriso estranho. – Hum… é… tudo está ao alcance do homem e ele deixa isso tudo escapar só por medo… é mesmo um axioma. Curioso: o que será que as pessoas mais temem… Pensando bem, eu ando falando pelos cotovelos. É por não fazer nada que falo pelos cotovelos. Ou pode ser assim também: eu falo pelos cotovelos porque não faço nada”.

Sobre os sabe-tudo

“Esses senhores sabe-tudo às vezes são encontrados, até com bastante freqüência, em certo segmento social. Sabem tudo, toda a intranqüila curiosidade de sua inteligência e a sua capacidade tendem irresistivelmente para um aspecto, é claro que pela ausência de interesses e concepções de vida mais importantes, como diria um pensador de hoje.

Alias, por “sabem tudo” deve-se subentender um campo bastante limitado: onde serve fulano de tal, quais seus conhecidos, quais são as suas posses, onde foi governador, com quem é casado, de quanto foi o dote que recebeu pela mulher, quem são seus primos de primeiro grau, e de segundo, etc. etc., tudo coisa desse gênero. Em sua maioria, esses sabichões andam com os cotovelos esfarrapados e recebem vencimentos em torno de dezessete rublos por mês.

As pessoas, de quem eles conhecem todos os segredos, naturalmente nem imaginam que interesses os guiam, mas, por outro lado, muitas delas se sentem positivamente confortadas com esse conhecimento, que se equipara a toda uma ciência, ganham auto-estima e até a suprema satisfação espiritual. E a ciência ainda é sedutora. Eu conheci cientistas, literatos, poetas, políticos que nessa mesma ciência estavam chegando e haviam chegado à suprema conciliação e aos seus objetivos, e inclusive tinham feito carreira decididamente apenas nessa ciência.”