O Futuro do RAC e Jornalismo de Precisão

O futuro do RAC e do Jornalismo de Precisão claramente apontam, em um primeiro momento, para a Internet. Matérias com um alto grau de interatividade são lançadas freqüentemente por organizações independentes ou por grandes meios de comunicação. O NY Times, por exemplo, já abriga uma equipe fixa que trabalha somente com a transposição dos dados públicos colhidos para aplicativos em que é permitido ao usuário interagir e visualizar os dados da maneira que desejar.

Imagem 4 – Assassinatos em Nova Iorque – NY Times

Em junho de 2009 o jornal lançou um aplicativo que inclui um mapa com todas as ocorrências de homicídio em Nova Iorque no intervalo 2003-2009. Através do mapa é possível saber, por exemplo, qual é a etnia do criminoso e da vítima, assim como suas idades, o motivo do crime e a arma utilizada. Todas as informações separadas por ano e com o recurso da busca disponível para encontrar ruas específicas. No mapa estão localizados os crimes exatamente onde os corpos foram encontrados, fornecendo uma precisão e conseqüentemente um mapa dos crimes na cidade. Este nível de detalhamento só foi possível porque a equipe teve acesso direto aos boletins de ocorrência do Departamento de Polícia de Nova Iorque.

Junto com o aplicativo uma matéria com a análise dos dados, intitulada ‘In New York, Number of Killings Rises With Heat’ (Em Nova Iorque, o número de assassinatos aumenta com o calor). A reportagem levanta uma série de fatores para este aumento de assassinatos durante os meses de verão, que inclui o aumento de circulação das pessoas nas ruas. Este é um exemplo de como o Jornalismo de Precisão pode se desenvolver a altos níveis de interatividade e participação popular, assim como exercer sua função analítica e investigar os ‘porquês’ dos dados.

O destaque que se faz ao termo Jornalismo de Precisão já é alvo de crítica por seu próprio criador. O pesquisador Philip Meyer admite que as nomenclaturas ‘RAC’ e ‘Jornalismo de Precisão’ estão ultrapassadas e devem ser abandonadas. O computador, segundo o próprio#, já é largamente utilizado por diversas profissões e já deve ser incorporado à rotina jornalística, assim como aos termos que o definem. Em seu artigo The future of CAR o pesquisador defende o abandono do termo por crer que seu apelo não se faz mais necessário. Para isso exemplifica com personagens da sua vida pessoal:

Meu primo Bob Meyer é um contador aposentado, e utiliza um computador para fazer auditoria dos livros do seu boat club, o Marco Island Sail and Power Squadron. Ele não se autodenomina um ‘contador com assistência de computador’#.

Nos dias atuais a crítica lançada ao termo por seu próprio criador tem uma importância grande para a evolução do jornalismo. Os próprios profissionais devem superar seus conceitos e tentar pensar adiante, alcançar novas estratégias para manter seus leitores atentos aos acontecimentos.

Seja lá qual for o novo termo, vamos desistir de ‘RAC’. Computadores são usados de maneiras tão diversas até nas redações que não define mais o que fazemos, se algum dia definiu. Chegou a hora de declararmos o RAC vitorioso e avançar a um conceito mais ambicioso e novo. Nós e o mundo precisamos disso#.

A Construção de um RAC

Meyer (1991), em seu livro The New Precision Journalism, identifica cinco etapas a seguir ao utilizar os dados para a construção de uma Reportagem com Auxílio de Computador:
– Coleta: O autor destaca que nem sempre é fácil encontrar os dados necessários para a pesquisa. O jornalista não é um profundo conhecedor das maneiras de coletar os dados, mas se faz necessário o conhecimento de algumas das regras dos estatísticos.

– Armazenamento: O armazenamento pode ser feito de diversas maneiras – a recomendação é que seja feita de forma inteligente, de preferência em computadores. O computador facilita o manuseio do material, assim como a seleção e os cortes do excesso de dados.

– Análise: Dentro da quantidade de dados é necessário fazer a seleção do material essencial para a análise e, após esta etapa, procurar por padrões dentro deste material. Somente com estes padrões alguma informação faz sentido e passa do status de uma informação única, um fato, para a representação de uma regra dentro de uma comunidade.

– Acesso: É muito importante o compartilhamento dos dados com outras pessoas e o acesso livre a este material. Isso pode ser facilitado através do armazenamento em bancos de dados digitais, conforme explicado no segundo item.

– Manipulação e comunicação: O jornalista deve ter a possibilidade e habilidade de reduzir grandes quantidades de dados, manipulando o banco de dados de forma a deixar os dados de uma forma inteligível e compreensível ao leitor final. Para isso tabelas, gráficos e ilustrações podem ser criados de acordo com a intenção do repórter.

Objetivos do RAC

Apesar de usarem argumentos essencialmente estatísticos, cabe deixar claro que projetos relacionados ao RAC devem ser inspirados por uma preocupação com um fator social, econômico, político ou comunitário. Não é possível descartar a dimensão humana deste processo motivador em prol da divulgação de números que não representem um problema da comunidade.

Qualquer bom projeto de reportagem utilizando o computador começa com um bom problema que precisa ser examinado. Os dados podem ser úteis e localizar tendências, mas é somente outra ferramenta para reportagens. De todo o trabalho que fazemos, é somente um passo intermediário na reportagem. O problema nos leva a coletar dados, e os dados nos levam a fazer perguntas e às instituições e às pessoas que utilizam estes. Um bom projeto precisa contar uma história, mostrar como a experiência humana é afetada.#

Meyer (1991) afirma que a Reportagem com Auxílio do Computador deve, em sua essência, recuperar o status de ciência que foi roubado do jornalismo por décadas de saturação. O desenvolvimento das técnicas de reportagem com o auxílio de computador reforçou a tendência científica do jornalismo, e deve ser utilizada como uma ferramenta precisa de argumentação. As funções básicas do jornalista – encontrar os fatos, entendê-los e avaliá-los, e em seguida apresentar àqueles que precisam e querem as conclusões – não devem ser alteradas por conta da introdução de um ou outro elemento.

Os argumentos do pesquisador para classificar o jornalismo como uma ciência são as características que envolvem os dois universos. Segundo Meyer (1991), uma das características é que nas duas áreas é necessário que o profissional seja cético, e informações sejam confirmadas por uma fonte confiável.

Apesar de utilizar pesquisas como base para a maior parte da sua produção, o Jornalismo científico não deve ser confundido apenas com o resultado de enquetes. Meyer (1991) explica que “pesquisas, quando feitas de maneira correta, são apenas uma parte do método científico, mas o conceito deve cobrir todas as formas do método científico, incluindo experimentos e registros públicos#”.

Jornalistas e cientistas devem ter uma espécie de instinto para operacionalização, isto é, descobrir padrões e tentar organizar os fatores de modo que possam ser analisados. Os dois profissionais almejam a verdade além da obrigação de serem parcimoniosos nesta busca.

Entretanto dentro da profissão o Jornalismo de Precisão desafia alguns dos mais antigos paradigmas. É da sua tradição que o jornalismo deve apenas reportar as notícias, e não criá-las – abrindo espaço para uma atividade passiva e inocente. O problema com o fato de ter uma conduta passiva e inocente é que desta maneira, assim como com a vida pessoal, o profissional e o veículo se tornam elementos muito frágeis e vulneráveis – fáceis de extrair vantagens políticas e econômicas.

A crítica que se faz ao jornalismo moderno é a de que os meios de comunicação, em geral, são muito facilmente dominados por políticos poderosos e seus habilidosos assessores de imprensa cujos desejos determinam facilmente o que é notícia e o que não é. Para se defender desta manipulação, a mídia precisa de mais auto-confiança – e o melhor caminho para a auto-confiança é através do conhecimento#.

As concepções que aproximam o jornalismo da ciência são contrárias à tendência artística em que se encontrou o jornalismo desde os anos 1960. No período nasciam as vertentes jornalísticas que apontavam para contar histórias de forma completamente subjetiva, o chamado new journalism, que garantia a jornalistas o direito de utilizar recursos da literatura para contar os fatos. Entre estes recursos estão a excessiva descrição, por ora com detalhes minuciosos de diálogos, ora com monólogos interiores (o que a pessoa pensou, assim como os argumentos que geraram sua manifestação), ou até mesmo a forma reduzida (muito próxima da poética) são alguns dos recursos que inspiraram jornalistas do new journalism.

Os elementos que constituem o new journalism tornam a leitura um processo mais prazeroso, entretanto se levados ao extremo escapam de alguns dos princípios do jornalismo a serviço da comunidade. Para este contraste entre as vertentes, o próprio Philip Meyer descreve seus objetivos na tentativa de fazer um jornalismo para a comunidade#:

1. O desejo de reconstruir um senso próprio de comunidade. Este senso equivale a uma realização, há muito tempo aguardada pelos jornais e prova de que as causas de seus problemas são partes de um único sistema.
2. Uma duração maior de cobertura. Ao invés de saltar de evento a evento, os meios de comunicação deveriam se manter atentos a um problema ou questão. O risco de redundância existe, entretanto deve ser encarado em favor da própria comunidade, a fim de que todos se mantenham conscientes do problema.
3. O desejo de aprofundar a questão até explicar na totalidade os sistemas que regem nossa comunidade. As reportagens focadas em eventos não são somente facilmente esquecíveis, mas principalmente superficiais. Não ajuda a comunidade a enxergar além da superfície e entender as fontes dos problemas.
4. Mais atenção ao centro racional do problema ao invés dos extremos. O próprio Philip explica:
Ensinando conceitos de estatísticas a repórteres, eu notei o quão irresistível é para eles se apegar aos extremos da distribuição normal. O senso noticioso aponta para o extremo, o bizarro. Entretanto na tomada de decisão democrática a maioria das pessoas está baseada no centro.

5. A preferência por substância do que táticas na cobertura política. Há uma tendência a tratar eleições como eventos esportivos, tratando os movimentos dos participantes como algo realmente importante para a comunidade. Entretanto as conseqüências que suas idéias podem trazer são deixadas em segundo plano, prejudicado o propósito da disputa.
6. O desejo de inspirar um debate. Expressar o ponto de vista do jornalista é importante, assim como entender o ponto de vista de outros. Ajudar e encorajar membros da comunidade a refletir sobre os casos e entender seus problemas é um aspecto chave para o jornalismo público.

Nestes conceitos defendidos por Meyer está identificada uma campanha que envolve ainda os conceitos do Jornalismo de Precisão, que o pesquisador trata no seu artigo The Future of CAR#. Para ele, o objetivo do jornalismo deve ser encontrar maneiras de recompensar os profissionais que buscam a verdade, assim como as empresas de mídia devem saber vender estas informações preciosas com o valor que merecem.

Temos de nos concentrar nos métodos testados ao longo do tempo, superar os pensamentos desejosos, a superstição, a percepção seletiva, e as fragilidades de outros seres humanos que dificultam a aquisição de conhecimentos. Precisamos construir uma força no jornalismo que premia o pensamento crítico e a análise cética da sabedoria convencional. Sim, o computador é uma ferramenta que pode nos ajudar a fazer isso. Mas isso é tudo o que é. Foco no objetivo, e então nós podemos usar o computador como garantia deste objetivo, como os agricultores, os contadores e os designers já fazem#.

O início do RAC

Segundo Meyer (1991), a entrada do RAC no universo do jornalismo se deu somente em 1952, coincidentemente durante as eleições presidenciais daquele ano. A disputa travada entre Dwight Eisenhower e Adlai Stevenson tinha a cobertura dos maiores veículos de comunicação americanos e, entre eles a rede CBS, que havia enviado o correspondente Walter Cronkite a Washington para acompanhar a movimentação e os últimos momentos antes do anúncio do vencedor. O repórter contratou então uma série de programadores, os quais prepararam fórmulas e às aplicaram às prévias, para concluir que Eisenhower seria o novo presidente dos EUA com larga vantagem sobre o segundo colocado.

Esta previsão assustou o alto escalão da CBS, o qual ainda acreditava em análises de uma disputa acirrada, e decidiu por não divulgar aquele cálculo. Para espanto de todos, a previsão preparada pelos programadores se provou correta assim que o resultado saiu. Nascia ali a Reportagem com Auxílio de Computador, e nenhuma outra eleição após 1952 ocorreu sem que os computadores fossem consultados para uma previsão#.

Após este estudo Philip Meyer, então repórter do Detroit Free Press, fez a cobertura de um episódio de tumulto em Detroit, em 1967 utilizando as técnicas do RAC para estudar o perfil dos participantes deste tumulto. O estopim deste episódio foi gerado por conta de uma incursão da polícia aos chamados Blind Pigs, bares dos bairros negros de Detroit, que desencadeou uma onda de violência generalizada – a população protestava contra a situação dos negros e o uso de violência por parte da polícia. Em cinco dias de tumultos foram contabilizadas 43 mortes e 1189 feridos, em sua maioria negros#.

Neste RAC, Meyer conduziu uma pesquisa entre os negros utilizando um software de análise de dados de um computador IBM 360. A análise revelou que pessoas que freqüentaram a escola tinham a mesma probabilidade de participar das confusões daqueles que abandonaram os estudos. O estudo rendeu a Meyer o prêmio Pulitzer e inaugurou uma nova era das reportagens.

Depois de seguidos avanços, o jornal The Miami Herald contratou uma série de estudantes da Universidade de Miami para inserir dados da corte em um sistema digital. A análise investigou cerca de 13 mil cartões de furo e conseguiu provar uma tendência no sistema de justiça de Dade County. A reportagem, intitulada “A Scientific Look at Dade Crime”, se tornou o primeiro uso jornalístico de computadores para analisar registros do governo#.

A partir desse episódio o que aconteceu foi uma maciça entrada dos computadores nas redações de jornais. Reavy (1996) reuniu essa evolução e separou em três fases que se sobrepõem: Business, Production e Information. A primeira delas se refere à utilização dos computadores exclusivamente para tarefas de contabilidade. Na segunda, ocorrida durante os anos 1960 os computadores foram apresentados aos jornalistas, mas apenas para controle de inventário e para edição. Na terceira, a partir dos anos 1970, o jornalismo alcança a fase de Informação e introduz as máquinas para a produção de matérias#.

O conceito de Reportagem com Auxílio do Computador (RAC) e Jornalismo de Precisão

A Reportagem com Auxílio do Computador, ou simplesmente RAC, é um conjunto de técnicas que envolvem a produção de reportagem utilizando como principal ferramenta o computador. Este método surgiu nos anos 1950, nos Estados Unidos, com a crescente utilização de computadores no mundo dos negócios e da indústria.

Em um primeiro momento, o RAC pode ser colocado como uma resposta do jornalismo à grande quantidade de dados gerados e administrados como conseqüência da evolução da comunicação. O jornalista da Era Digital lida com uma quantidade gigantesca de informações e a filtragem destas informações se torna necessária na medida em que somente as informações pertinentes à melhoria da comunidade devem ser colocadas em questão. Estes dados são utilizados como documentos para análises de fatos, um instrumento importante para a elaboração das Reportagens.

O Jornalismo de Precisão foi sistematizado pelo próprio Meyer em seu livro Precision Journalism, de 1973, para desenvolver os princípios que envolvem a produção de um RAC. Sua função, segundo o pesquisador, é ‘encorajar jornalistas a aplicar os princípios do método científico às tarefas de reunir e apresentar as notícias’.

Open Source Journalism

Durante o início deste século XXI diversos aplicativos essencialmente produzidos por profissionais da área de tecnologia tem mudado o conceito da distribuição de informações jornalísticas. Isso se deu principalmente através do conceito de Open Source Journalism (OSJ). O OSJ apropria-se da noção de trabalho colaborativo para desenvolvimento e aprimoramento de códigos de software guiados pela cultura do Open Source Software#. O paralelo se faz presente principalmente pelo fato de que o conteúdo gerado por estes Websites é adicionado exclusivamente por seus leitores a partir do que encontram em outros Websites da Internet, grandes portais ou pequenos blogs pessoais.

Os leitores formam um exército de 600 mil pessoas extremamente ávidas por notícias que criam um serviço noticioso colaborativo na área de tecnologia#.

O maior exemplo no campo do Open Source Journalism é o Website Digg#, com cerca de 43,7 milhões de usuários únicos durante o mês de agosto de 2009#. No Digg o usuário pode, assim que se cadastrar, lançar na comunidade links que julgou interessante sobre qualquer tema. Assim a comunidade vai acessar e, ao clicar no botão Digg relativo àquele link, adicionar ‘pontos’ àquela informação. Assim as páginas que encabeçam os principais temas contêm os links listados relativos ao maior número de votos.

Imagem 3 – Página principal do Website Digg

Em um paralelo com o mass media, o Open Source Journalism funciona como se os próprios leitores decidissem o que é importante estar na capa de um jornal ou das principais editorias – tudo feito de forma instantânea, através de votos.

O que queremos dizer é que um blog pode estar no mesmo plano do NY Times, por exemplo. E está nas mãos das pessoas decidir o que é importante.#

Este conceito é importante para entender o funcionamento dos mecanismos de distribuição de um pequeno provedor de notícias, por exemplo. Através de Websites como o Digg, por exemplo, um usuário pode receber notícias de regiões não cobertas por grandes veículos.

O Jornalismo Digital

Nas discussões acerca da profissão o jornalismo digital está em absoluto destaque nos dias atuais. Isto porque a maior parte dos profissionais recém formados deve conseguir seu primeiro emprego trabalhando em algum veículo digital, sendo obrigado a se adaptar à nova dinâmica que é proposta pela Internet.

Ainda que seja uma realidade dentro das redações, as Universidades ainda se adaptam aos meios digitais. As escolas de jornalismo mais tradicionais nos EUA, onde a Internet tem uma grande penetração, já adaptaram seus currículos e introduziram entre suas matérias alguns conceitos básicos de programação e manipulação de bancos de dados para a criação de reportagens com auxílio do computador (RAC).

Os profissionais formados em jornalismo têm apresentado uma dificuldade grande em divulgar dados e gerar informação de bancos de dados brutos. A descrença atual é tão evidente que meios de comunicação vêm destacando a intenção do fator oposto ao comumente visto: Universidades tradicionais americanas dedicadas especificamente à formação tecnológica, como por exemplo a Universidade da Califórnia, Berkeley, estão dando cursos opcionais para ensinar os conceitos básicos do jornalismo.#

A mesma Universidade da Califórnia (EUA), Berkeley, também exige que estudantes de jornalismo façam um treinamento de semanas em desenvolvimento Web, em que são introduzidos aos conceitos de XML, HTML e outras linguagens de código comumente utilizadas em Websites hoje.

Isso não quer dizer que os jornalistas devem dominar linguagens de programação ou dominar conceitos de gerenciamento de projetos online, como o Scrum#, por exemplo. Entretanto o maior conhecimento que apresentar sobre o universo que compõe a Internet, assim como as redes ajudam a entender o público que utiliza a Internet como principal fonte de notícias e principalmente como estas informações se espalham com tanta facilidade pela rede.

Estes jornalistas devem se preocupar em entender que as regras da televisão e do rádio não devem ser seguidas nos vídeos e no áudio disponbilizado na Internet. Uma nova forma de apresentação destas informações deve ser testada a fim de que a rede não seja uma mera extensão da televisão ou do rádio, mas um mecanismo que amplie as possibilidades destes antigos meios.

A Internet não sofre com as limitações impostas pelas mass media: o tempo, uma limitação para a televisão, e o tamanho, uma limitação dos jornais. Por isso os profissionais devem permitir e prover recursos para que o leitor online aprofunde seus conhecimentos nos temas abordados até por uma simples notícia, por exemplo. Podem ser utilizados links úteis para agencias especializadas em um determinado assunto, assim como uma entrevista na íntegra com um especialista. Desta maneira a Internet tem um potencial gigantesco a ser explorado tanto por profissionais quanto pelos leitores.

Caso Barack Obama

O meio político, aproveitando-se completamente da tendência de queda do interesse dos jovens com relação à política e a falta de exploração dos novos meios midiáticos, foi capaz de revolucionar a maneira de se comunicar com a sociedade.

Nesse sentido, a eleição para escolha do presidente americano em 2008 foi um episódio marcante para a comunicação. A campanha que envolveu a eleição de Barack Obama utilizou-se ativamente dos canais mais populares e comumente utilizados por jovens para conquistar mais votos e distribuir o material para um público antes, em geral, muito desinteressado em política.

Apesar de um aumento na reunião de eleitores entre dezoito a vinte e quatro anos de idade na eleição presidencial de 2004, no entanto, essa faixa etária também tem sido tipicamente entendida como formadores de opinião estão no declínio do capital social, posicionado na linha da frente a queda das taxas de engajamento cívico e participação política” – XENOS/FOOT, 2008, Tradução nossa.

Por estes motivos, nesta mesma eleição, utilizando-se de diversas ferramentas os candidatos foram levados a um espaço cibernético e alcançaram uma audiência nunca antes vista. Estima-se que 75 milhões de americanos#, representando 37% da população adulta e mais da metade dos usuários de Internet dos Estados Unidos procuraram informações sobre as campanhas. Mais interessante ainda é que cerca de 20 milhões de usuários utilizaram a Internet diariamente para acompanhar de perto as eleições.

Esta visão otimista de participação online da população jovem americana pode não se tornar tão otimista quando observada de perto. O salto repentino no número de participantes é oposto ao retratado no histórico declínio da participação desta faixa etária.

O tema invadiu as redes sociais dos tipos mais variados e propôs uma integração inclusive dos grandes jornais, que se viram obrigados a checar estas redes para medir o ‘termômetro dos eleitores’. Em mais de uma década essa foi a primeira grande participação desta faixa etária da população, a qual também foi impulsionada também outros fatores: a participação partidária ativa e a Guerra do Iraque foram destaques entre os temas de discussão preferidos pelos jovens americanos. Neste momento merece destaque o surgimento de Websites direcionados a estas discussões, como o Rock the Vote#, ProPublica#, EveryBlock# e PolitiFact#.

Nesse período também surge o Website Polifact, que após alguns meses da eleição americana inaugurou o Obameter (referência clara ao presidente Barack Obama), uma seção online que trazia estatísticas do andamento das promessas de campanha do recém eleito presidente americano. Listadas e descritas conforme proposto pelo candidato Barack Obama, eles são acompanhadas diariamente para se quantificar quantas propostas estão sendo colocadas em prática e discutidas pelo governo eleito.

O mote deste projeto surgiu a partir de uma declaração do próprio candidato: “I want you to hold our government accountable. I want you to hold me accountable.#”

A capa do projeto mantém uma espécie de placar em que é contabilizado de forma geral e estatística o que vem sendo feito e o que ainda está por fazer de acordo com as promessas de campanha de Barack Obama.
Imagem 2 – Placar de Atuação do Governo Barack Obama

Potencial Comunicativo da Internet

É evidente a tendência da incorporação no dia-a-dia de atividades ligadas à Internet, e para diversos grupos urbanos já é parte fundamental no processo criativo, de comunicação e de expressão – e abre caminho para uma nova forma de comunicação#. Ainda sob este contexto a Internet é um meio convergente, na medida em que agrega diversas modalidades de mídia dentro de uma só rede e permite a mistura entre diversos componentes, abrindo possibilidades para experimentos entre os mais diversos tipos de produções, como a fotografia e o rádio, por exemplo.

A Internet é um meio com estrutura essencialmente rizomática#, em contrapartida à raiz em que a maior parte dos meios de comunicação está estruturada. Entre os mass media#, esta voz parte de um tronco central e constitui o fluxo emissor-receptor – que pode, por exemplo, ser identificado pela televisão, rádio ou jornal – e dele são emitidas algumas opiniões, as quais nem sempre são as representações da diversidade de uma população. Por isso este meio virtual pode permitir uma multiplicidade de vozes para formar a opinião pública.

No ambiente informacional, as redes digitais estariam promovendo profundas mudanças na esfera pública. Segundo Benkler, o ambiente informacional apresenta duas grandes diferenças em relação ao ambiente do broadcasting. A primeira distinção está na arquitetura de rede. A arquitetura unidirecional dos fluxos de informação dos mass media é alterada para uma arquitetura distribuída, com conexões multidirecionais entre todos os nós, formando um ambiente de elevada interatividade e de múltiplos informantes interconectados. A segunda diferença ocorre nos custos para tornar-se um falante ou emissor. O ambiente das redes digitais elimina os custos de comunicação como barreiras para falar e propagar suas mensagens. Essas características, segundo o mesmo autor, alteram a capacidade dos indivíduos, sozinhos ou em coletivos, tornarem-se ativos participantes da esfera pública. O exame da aplicação desse ambiente ou ecossistema de redes informacionais na produção da esfera pública sugere que a emergência dessa esfera enredada possua um potencial democrático muito maior do que a esfera pública dominada pelos mass media comerciais#.

A Internet então abre um leque enorme para cidadãos trocarem informações e terem acesso a um material muito mais diversificado. Organizações recém nascidas de pequeno porte contam, neste novo contexto, com todo um aparato novo de comunicação que aproxima seu público da organização. Impulsionados principalmente pela Internet, este público pode contar com notícias diretamente relacionadas à causa daquelas organizações. Até o final dos anos 1990, as organizações tinham que contar com um grande número de profissionais a um custo exorbitante para produzir este material, e um custo ainda maior para ter seu material veiculado nos meios de comunicação. A partir de então esta comunicação é descentralizada e novos meios de produção de conteúdo menores facilitam a distribuição deste conteúdo, que pode ser produzido a custo que se aproxima do zero.

No ambiente informacional, as redes digitais estariam promovendo profundas mudanças na esfera pública. Segundo Benkler, o ambiente informacional apresenta duas grandes diferenças em relação ao ambiente do broadcasting. A primeira distinção está na arquitetura de rede. A arquitetura unidirecional dos fluxos de informação dos mass media é alterada para uma arquitetura distribuída, com conexões multidirecionais entre todos os nós, formando um ambiente de elevada interatividade e de múltiplos informantes interconectados. A segunda diferença ocorre nos custos para tornar-se um falante ou emissor. O ambiente das redes digitais elimina os custos de comunicação como barreiras para falar e propagar suas mensagens#.

Relatórios e notícias podem ser transmitidos através de blogs#, vídeos institucionais podem ser filmados, editados e transmitidos sem a necessidade de conhecimento altamente especializado, e redes sociais contam com seus membros para passar adiante as informações que julgam interessantes.

Neste contexto, este novo agente pode ser visto como um catalisador da integração entre comunicação, cultura, política e comércio – já que, em sua essência é uma mediação entre pessoas, comunidades, organizações, instituições e indústrias. É possível, por exemplo, que um usuário escreva uma crítica imediatamente após a divulgação de uma notícia e esta se espalhe e alcance tantos receptores quanto a própria notícia original, colocando lado a lado e com o mesmo peso informações corporativas e informações produzidas por cidadãos comuns.

A distribuição é um fator muito importante neste processo. Por sua organização, a Internet proporciona uma navegação com uma liberdade e sem um centro transmissor de informações. As redes sociais, plataformas de comunicação online entre pessoas, amplificam este poder de troca de conteúdo através da confiança com que estes laços virtuais são traçados. Espalhados pela Internet, estas comunidades virtuais conectam indivíduos que têm o mesmo interesse, permitindo que produzam e troquem informações sobre estas paixões.

Em quem você confia mais? Um grupo de executivos de corporações em uma sala fedida de cigarros ou você confia nos seus semelhantes, as pessoas que estão conectadas a você?#

Estas empresas, lideradas principalmente por pequenos e jovens empresários, utilizam destes fatores para colocar as criações de usuários no centro desta relação, ao invés de ter apenas alguns produtores trabalhando – como funciona a mass media. O otimismo quanto a esta relação, que por muitas vezes pode ser exagerado, só traduz o potencial comunicativo deste meio.

Estive entre reuniões e encontros dos lideres desta nova geração de empresas, como o Youtube, MySpace, Facebook, companhias que começaram a tornar a Web em uma via de duas mãos, participativa, uma mídia democrática. Controlada por ninguém, e formada por todo mundo#.

Este novo modelo de comunicação, que o pesquisador Yochai Benkler chama de ‘hybrid media ecology’, trata da interação dos mais diversos modos em um único ambiente: o comercial, o amador, o governamental, não lucrativo, educacional, ativista e outros modos têm o poder de produzir e distribuir conteúdo, assim como ter sua produção alterada e misturada em todo momento.

Se, por um lado, as pessoas ganharam a oportunidade de produzir, distribuir e dividir seus mais variados pontos de vista, as empresas e meios de comunicação estão se adaptando para sinergizar suas marcas e produções em todos estes canais. Grandes companhias e políticos estão aprendendo como potencializar sua comunicação através dos mais diversos canais, enquanto os consumidores estão aprendendo como utilizar estes canais para se beneficiar da informação gerada. Este processo não necessariamente é oposto, podendo ser potencializador um do outro.#

As empresas estão introduzindo elementos em suas campanhas que agregam o que os próprios usuários criam, misturando sua marca com produções independentes. A mensagem, redistribuída através de canais sociais é potencializada, alcançando um número maior de pessoas. Desta maneira organizações de porte menor também conseguem seu espaço entre os gigantes da comunicação, já que tem acesso a esses canais.

Seja lá qual for o engajamento com o qual um cidadão deseja colaborar são encontradas informações essenciais a apenas um clique de distância a qualquer hora do dia e da noite#. Através de buscadores facilmente são encontrados Websites com grupos de discussões recrutando membros para alguma ação ou até para contribuição permanente, quase sempre engajamento feito por jovens. Desta maneira, por exemplo, os grupos que defendem as causas do meio ambiente ganharam a atenção de muitas pessoas, principalmente dos jovens.

Principal alvo da publicidade, os jovens estão sempre à frente com relação às inovações do mundo tecnológico. Permanecem nos topos das listas de usuários que mais usam a Internet e precoces na utilização de tecnologias como peer-to-peer#, compartilhamento de arquivos e ferramentas de interação social. Estão cercados por tecnologias digitais e pelo menos alguma parte de suas atividades semanais passa em algum momento pelo ciberespaço. Usuários nesta faixa etária não só demonstram uma facilidade com novos meios de comunicação e conexão entre eles, mas são capazes de definir sua aparência, funcionalidade e finalidade – em alguns casos diferente do que imaginavam os inventores destes.

E-government no Estado de São Paulo

No Brasil, o Estado de São Paulo é, nos dias atuais, aquele que melhor aproveita destas tecnologias para melhorar sua comunicação com o cidadão. As ferramentas sociais mais conhecidas no momento, como o serviço de microblogging Twitter#, são utilizadas seguindo regras corporativas que incentivam a participação deste novo nicho de cidadãos conectados.

O Poupatempo, projeto do Estado de São Paulo que oferece em um mesmo local diversos serviços de natureza pública ao cidadão, informou pelo Twitter a abertura de inscrições para voluntários do projeto “escreve cartas”, na unidade de Guarulhos e, em menos de 10 minutos a informação já tinha sido retransmitida por outros 18 usuários. A Polícia Civil de São Paulo, utilizando-se do seu Website informa, com freqüência, a população e os membros da sua corporação sobre as operações desencadeadas, apreensões, prisões e eventos – além das informações completas institucionais completas que, infelizmente, ainda não são amplamente divulgadas em outros Estados.

Os usuários e os monitores do programa Acessa SP, que por meio da inclusão digital oferecem à população do Estado o acesso às novas tecnologias, usam as ferramentas sociais como um canal colaborativo e compartilham as experiências dos postos em vídeos, fotos e textos no You Tube#, Flickr# e Twitter.

A comunicação via torpedo já é usada pelo programa Emprega SP, que informa sobre vagas de trabalhos. A lei antifumo foi divulgada para milhares de cidadãos via celular. O Poupatempo também vai confirmar com antecedência o horário agendado para o cidadão emitir o RG (Registro Geral da Secretaria de Segurança Pública).